Quarta-feira, 17 de Março de 2010

O INTERESSE NACIONAL E A ROLHA

 

 

Como se neste recanto à beira mar plantado nada mais houvesse de importante, retomou-se um mito dos tempos de antigamente “a lei da rolha”, a propósito de uma medida sancionatória aprovada no recente congresso do PSD, em sede de alteração estatutária.

O caso em si tem uma importância relativa, mas contém pelo menos um ponto ridículo e outro preocupante.

 A importância relativa resulta de  que salta à vista de todos que o PSD, ou qualquer outro partido político de gene democrático, não se torna por isto mais ou menos disciplinado nem mais ou menos defensor da liberdade de expressão.

A questão está em ter-se necessidade de pôr tal coisa nos estatutos quando já existe um regulamento disciplinar que prevê vários tipos de sanções, podendo ir até à expulsão.

O ponto ridículo são os sessenta dias.

Até 61 dias antes de qualquer eleição poderá qualquer militante desancar à vontade na direcção do Partido, ou discordar das suas directrizes políticas, porque sabe que essa infracção não será considerada grave (enfim dependerá sempre das circunstâncias de cada caso) a ponto de o levar a ser expulso.

Passada a “quarentena” dos dois meses, logo no dia imediatamente a seguir ao acto eleitoral, pode voltar a fazê-lo.

Ou seja, só é grave em termos de fundamentar uma expulsão durante aqueles precisos 60 dias.

Só um desabafo: não lembra ao diabo.

Há contudo um ponto preocupante.

A sensação que fica é que os delegados (militantes que são) que aprovaram tal coisa, fosse por cansaço ou qualquer outro motivo, não se devem ter apercebido bem do que estavam a aprovar. Era domingo, último dia do Congresso, já passava da normal hora de almoço, o dia anterior tinha sido esgotante, começaria a brotar uma latente vontade de pôr fim aos trabalhos e, pormenor não despiciendo, o próprio Presidente da Mesa disse em determinado momento que não tinha havido tempo para se estudarem a fundo as propostas.

Para ser claro: o Congresso teve à pressa uma parte de revisão estatutária.

O seu grande objectivo era baralhar as cartas das já anunciadas candidaturas à liderança, e tentar por um lado “pôr todos a discutir contra todos” assim pondo em causa um determinado candidato pré anunciado como favorito, e, por outro lado, que dessa confusão saísse um pretenso “salvador da pátria” que, impulsionado por uma mole inesperada de apoiantes ( a famosa e já gasta “vaga de fundo”) ali resolvesse anunciar a sua decisão de se candidatar num acto de sacrifício pessoal para salvar o partido e o país.

Por alguma razão somos o país do fado. Os portugueses deixam-se sempre enrolar nestas jogadas aparentemente inesperadas que os levam até às lágrimas de emoção, mas que têm tanto de inesperado como a espuma das ondas a espraiar-se na areia.

E o que é preocupante afinal é que, ao que parece, uma boa parte do  PSD ainda não percebeu (ou não lhe interessará perceber) que o Partido só andará em frente se se libertar dos “senhores” e “figuras” do passado.

Isto é capaz de ter algum lado freudiano mas haverá decerto algum terapeuta que ajude o Partido a arrumar as ideias e encontrar novo rumo.

O passado é decerto importante, mas ficar perenemente agarrado a ele não dará grande resultado.

E o que tem isto afinal a ver com o interesse nacional?

Tem tudo.

Quem tem acompanhado este meu blogue sabe do meu cepticismo quanto à famosa União Europeia.

Assunto “estafado” e que até já a mim próprio enjoa mas, nem que seja só mais uma vez, tem de ser.

O ministro alemão das finanças veio recentemente dizer a propósito da Grécia que os países que não cumpram as metas do défice e não sejam capazes de organizar as suas contas públicas, deverão sair da zona euro.

Só por acaso foi o ministro alemão, não foi o da Itália ou do Luxemburgo.

Além disso propôs a criação de um Fundo Monetário Europeu.

A primeira constatação é logo esta: magnífica que é a famosa coesão europeia.

Patriotismos bacocos à parte, chateia-me esta coisa de que quem manda na minha casa não sou eu.

O cidadão médio português vive preocupado com o défice?

Ou vive angustiado com a sua sobrevivência (e da sua família) que vê cada vez mais difícil por causa do dito défice?

Não tendo força para impor regras, somos obrigados a viver mal para ter de cumprir as regras que outros nos impõem?

E se não as cumprirmos são tão nossos amigos que nos apontarão a porta da saída da moeda única?

Claro que ele estava a falar da Grécia, mas referiu-se “aos países…”.

Então se o grande objectivo é uniformizar a qualidade de vida em toda a zona euro onde está a coerência?

Pois é.

É que em nome do “interesse nacional” viabilizou-se um  Orçamento de Estado e, provavelmente, vai dizer-se “sim” a um PEC com que dizem não  concordar. São alguns  políticos que o dizem. Está publicado.

Para no fim continuar tudo na mesma, com a generalidade das pessoas a viver mal em favor do dito interesse.

E este apelado interesse nacional mais não é que o medo patente dos grandes da Europa.

A pergunta impõe-se:

Mas qual é o interesse nacional que justifica que os nossos cidadãos vivam cada vez pior só para fazer a vontade a quem dita as leis da União?

Pelo menos o dito ministro alemão das finanças teve por uma vez a coragem de dizer aquilo que é o verdadeiro fundamento de quem realmente manda.

Não tem de ser necessariamente aquilo que nos interessa.

 

 

 

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publicado por H. Dias Pedro hdp às 23:58

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